Após ser aclamado pela crítica e indicado em diversas categorias do Oscar, o filme “Coringa” dispensa novos comentários de ordem cinematográfica. Voltando ao campo do nosso interesse, faremos uma análise psiquiátrica do personagem central do filme. Neste primeiro estudo, vamos discutir uma das suas principais características do Coringa: o riso patológico.
As imagens a seguir aparecem em dois momentos distintos do filme e revelam uma das alterações mais clássicas do Coringa. Nas cenas, o personagem está sentado no ônibus/metrô quando inicia um quadro de riso incontrolável, que chega a causar estranhamento a terceiros. A essa alteração dá-se o nome de afeto pseudobulbar.

- O que é e como se desenvolve o “Afeto Pseudobulbar”?
O afeto pseudobulbar é identificado como uma expressão afetiva não controlada pelo indivíduo, de curta duração, que geralmente se manifesta por choro ou riso de grande intensidade. A expressão manifesta é desconexa e desproporcional ao estímulo do ambiente.
Diversas etiologias (AVC, hipoxemia, doenças neurodegenerativas, entre outras) podem cursar com o afeto pseudobulbar. Fato é que, independente da causa, o quadro se desenvolve após uma lesão tecidual na região do córtex pré-frontal. Essa nobre área cerebral, entre diversas outras funções, é responsável por modular os impulsos emotivos e afetivos provenientes de centros cerebrais profundos, como o sistema límbico e o diencéfalo.
Sendo assim, lesões corticais pré-frontais podem se correlacionar com a redução da inibição emocional e afetiva, manifestando expressões distorcidas, patológicas.

- Afeto Pseudobulbar é uma doença?
Sendo um doença, o afeto pseudobulbar poderia ser diagnosticado e classificado de acordo com sistemas vigentes, mas não é isso que acontece. A alteração não é descrita nem no DSM-5, nem no CID-10. Sendo assim, o afeto pseudobulbar pode ser entendido como a manifestação clínica de uma doença ou lesão subjacente.
Torna-se fácil concluir, então, que diante de um paciente que apresente um quadro semelhante, é preciso investigar e tratar a doença ou disfunção de base. Durante a investigação, Antidepressivos Tricíclicos e Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina podem ser prescritos para melhor controle sintomático.
Pois bem, essa foi apenas uma introdução a ampla discussão psiquiátrica sobre o filme “Coringa”. Ao longo dos próximos textos aprofundaremos mais no personagem, discutindo seu possível diagnóstico.
Até lá!