Como a fobia social altera a forma como o paciente percebe interações sociais?

Indivíduos com fobia social interpretam o ambiente interpessoal de maneira distorcida, apresentando um viés cognitivo que favorece a detecção, amplificação e retenção de sinais negativos emitidos por outras pessoas. Esse padrão compromete o processamento adequado das informações sociais, tornando-os mais propensos a interpretar interações neutras ou ambíguas como críticas ou rejeições.

Por que indivíduos com fobia social têm dificuldade em ignorar sinais negativos?

Após direcionarem a atenção para estímulos negativos, esses indivíduos tendem a se fixar nessas informações e demonstram dificuldade em se desvincular delas, mesmo quando não são relevantes ou quando causam sofrimento. Esse padrão reforça pensamentos disfuncionais, intensifica a ansiedade social e perpetua o ciclo de medo e evitação.

Qual é o mecanismo neurobiológico central da fobia social?

A fobia social parece estar associada a um desequilíbrio entre os sistemas cerebrais responsáveis pelo alerta a ameaças e aqueles envolvidos na regulação emocional. Como resultado, o cérebro reage a situações sociais como se fossem contextos de alto risco, favorecendo respostas de esquiva em detrimento de comportamentos de aproximação.

Como o cérebro desses pacientes reage a rostos e contato visual?

Esses pacientes demonstram:

  • Hipersensibilidade ao contato visual direto
  • Ativação aumentada da amígdala
  • Resposta exagerada a expressões faciais negativas
  • Evitação do olhar, especialmente dos olhos

Esse padrão pode ser interpretado como uma resposta evolutiva exagerada de submissão e autoproteção.

Como crianças com fobia social processam rostos?

Crianças com fobia social:

  • Sentem maior ansiedade ao olhar para rostos;
  • Evitam contato visual;
  • Têm menos oportunidade de aprender a interpretar expressões faciais;
  • Desenvolvem modelos mentais negativos sobre o que os outros pensam.

Quais são as consequências comportamentais da evitação do olhar?

A evitação visual pode:

  1. Impedir o reconhecimento de sinais sociais positivos;
  2. Prejudicar o desenvolvimento da leitura emocional;
  3. Reforçar uma autoimagem negativa;
  4. Levar a julgamentos sociais rápidos e enviesados, baseados em experiências passadas.

O que ocorre na conectividade cerebral na fobia social?

Há evidências de:

  • Desacoplamento entre regiões corticais (regulação) e subcorticais (medo);
  • Hiperativação da amígdala;
  • Maior atividade em redes de processamento facial;
  • Redução da atividade cortical inibitória, que normalmente ajudaria a controlar o medo.

Quais áreas cerebrais mostram alterações específicas?

Pacientes com fobia social podem apresentar:

  • Maior ativação na amígdala, ínsula, giro fusiforme, cíngulo anterior e córtex pré-frontal;
  • Ativação específica do córtex pré-frontal direito e do lobo parietal esquerdo;
  • Redução da atividade no precuneus e no cíngulo posterior, sugerindo alteração no processamento do “self” e da percepção social.

Como essas alterações afetam memória e autoimagem?

Esses indivíduos tendem a:

  • Depender excessivamente de memórias autobiográficas negativas;
  • Ter dificuldade em atualizar interpretações sociais com novas informações;
  • Manter expectativa persistente de julgamento negativo;
  • Vivenciar interações sociais como se estivessem “em julgamento constante”.

Qual o papel da amígdala na fobia social?

A hiperativação da amígdala é um dos achados mais consistentes e está associada a:

  • Resposta intensa ao medo social;
  • Memórias emocionais negativas mais duradouras;
  • Maior impacto emocional de rejeições interpessoais.

Quais alterações neuroquímicas são observadas?

Além de alterações comuns a outros transtornos de ansiedade (↑ atividade adrenérgica e ↓GABA), há evidências de:

  1. Disfunção em serotonina (hipersensibilidade a estímulos sociais negativos)
  2. Redução da atividade dopaminérgica (D2) no corpo estriado, associada a:
  • Menor motivação social;
  • Menor exploração social;
  • Redução da sensação de recompensa social.

Como a rejeição social se relaciona com dor física no cérebro?

A rejeição social ativa o córtex cingulado anterior dorsal, a mesma região envolvida na dor física. Isso sugere que, para esses pacientes, interações sociais podem ser percebidas como ameaças dolorosas, o que contribui para evitação.

Há evidências de benefício com intervenções psicológicas?

Sim, visto que terapias cognitivas e mindfulness demonstraram:

  • Redução da ativação da amígdala;
  • Aumento do controle atencional;
  • Melhora na regulação emocional e na interpretação social.

A fobia social pode ter origem evolutiva ou ambiental?

Possíveis explicações incluem:

  • Predisposição biológica para baixa competitividade social;
  • Impacto de experiências precoces de punição ou humilhação;
  • Padrão evolutivo semelhante a comportamentos de submissão em primatas.

Esses achados são causa ou consequência da fobia social?

Ainda não está claro se as alterações neurobiológicas são causa ou resultado do transtorno. Contudo, provavelmente há uma interação entre predisposição biológica e experiências ambientais.

Referência: BOLAND, Robert J.; VERDUIN, Marcia L. (Eds.). Kaplan & Sadock's Comprehensive Textbook of Psychiatry. 11. ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2024.