No primeiro texto de delirium abordamos sua epidemiologia, etiologia e manifestações clínicas.

Neste texto iremos continuar sobre o assunto abordando o diagnóstico, a prevenção e o tratamento.

Boa leitura!

 

Diagnóstico:

Uma boa parte dos casos de delirium não é reconhecida e, em alguns serviços de saúde, a causa pode ser a falta de uma rotina de triagem apropriada.

Você precisa saber que:

O diagnóstico de delirium é primordialmente clínico. A avaliação envolve o paciente e, sempre que possível, um informante, por conta dos déficits cognitivos.

O médico deve fazer anamnese detalhada, observação do comportamento, exame físico completo (incluindo avaliação neurológica) e, eventualmente, leitura de prontuários médicos.

Devem ser investigados o tempo de início, a duração, os fatores de vulnerabilidade e precipitantes, o abuso ou dependência de substâncias psicoativas, a prescrição médica atual, as cirurgias prévias, o estado nutricional e a hidratação.

 

Como é a investigação no idoso?

No idoso, a investigação laboratorial inicial deve incluir hemograma completo, eletrólitos, níveis de ureia, creatinina, glicose, cálcio, magnésio e fósforo, testes de função hepática, exame de elementos e sedimentos anormais na urina, gasometria arterial, eletrocardiograma (ECG) e radiografia de tórax.

A necessidade de outros exames deve ser guiada pela avaliação clínica. Eletroencefalograma (EEG) é requisitado na suspeita de crises convulsivas ou para o diagnóstico diferencial.

O alentecimento generalizado é o padrão típico de EEG na maioria dos casos de delirium. Nos casos de delirium tremens, o traçado do EEG mostra frequentemente atividade rápida de baixa voltagem.

 

Quando é indicada o exame de neuroimagem?

O exame de neuroimagem (tomografia computadorizada ou ressonância nuclear magnética) é indicado quando há sintomas neurológicos, história de traumatismo craniano ou em idosos em pós-operatório, pela incidência aumentada de acidente vascular cerebral.

 

O diagnóstico de delirium pode ser feito pelos critérios padronizados do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em sua quinta edição (DSM-5) e, para isto, devem estar presentes:

a) Perturbação na atenção (redução na capacidade de focar, sustentar e desviar atenção) e na consciência (diminuição da orientação ambiental)

b) O desenvolvimento do quadro em curto período de tempo (horas ou poucos dias) representa uma mudança na linha de base da atenção e da consciência e tende a flutuar ao longo do dia

c) Uma perturbação adicional na cognição (déficit de memória, desorientação, linguagem, percepção ou habilidade visuoespacial)

d) As alterações observadas nos critérios a e c não são explicadas por doença neurocognitiva preexistente e não ocorrem no contexto de uma grave perturbação do nível de consciência (p. ex., coma)

e) A evidência pela história, exame físico ou achados laboratoriais de que o distúrbio é consequência fisiológica direta de outra condição médica, intoxicação ou abstinência de substâncias psicoativas, exposição a toxinas ou de múltiplas etiologias.

 

Prevenção e tratamento:

A identificação do delirium e o início de seu tratamento devem acontecer o mais rápido possível. O manejo inicia-se com o tratamento não farmacológico, como medidas de desescalada para agressão e agitação psicomotora. Uma equipe multiprofissional (enfermeiros, psicólogo, clínico geral, psiquiatra) é necessária para atender às necessidades do bom cuidado aos pacientes com delirium e deve estar atenta para:

- Comunicar-se com frequência com o paciente e a família

- Garantir um ambiente calmo e confortável

- Informar sobre ruídos ou equipamentos não familiares

- Informar sobre ou apresentar pessoas desconhecidas no ambiente

- Orientar o paciente frequentemente sobre onde está e o que faz naquele lugar

- Fornecer calendários, relógios, sinalização e boa iluminação

- Facilitar visitas de amigos e familiares e, se possível, envolvê-los nos cuidados de reorientação e prevenção de danos

- Deixar o ambiente mais familiar, permitindo itens pessoais ou porta-retratos perto do leito

- Utilizar atividades que estimulem cognitivamente

- Corrigir qualquer déficit sensorial (p. ex., remover cera, disponibilizar óculos)

- Oferecer bebidas quando visitá-lo, para mantê-lo hidratado

- Interessar-se pela boa nutrição (p. ex., fornecer dentaduras, envolver nutricionista)

- Encorajar a mobilidade precoce

- Evitar barulhos ou iluminação que possa prejudicar o sono

 

Durante o tratamento, a equipe médica deve ser diligente para:

a) Corrigir hipoxia e hipotensão

b) Manter-se vigilante em relação à infecção

c) Monitorar as eliminações e tratar obstipação intestinal

d) Identificar e tratar dor

e) Revisar as medicações (suspender as com propriedades anticolinérgicas)

f) Evitar cateteres, aplicar medicação intravenosa ou coletar exames laboratoriais desnecessariamente

g) Não perturbar o sono do paciente com procedimentos ou administração de fármacos

Importante:

A maioria dos casos de delirium resolve-se rapidamente. Se os déficits cognitivos não melhoram, mesmo após o tratamento, é preciso avaliar a eficácia da terapêutica realizada, pesquisar outras causas para o delirium e, por último, considerar o diagnóstico de demência.

 

Tratamento medicamentoso:

- No tratamento dos sintomas neuropsiquiátricos e comportamentais do delirium, haloperidol é considerado fármaco de primeira linha, especialmente por ter menos efeitos anticolinérgicos, poucos metabólitos ativos e baixa propensão para sedação e hipotensão arterial.

- Recomendam-se doses de 1 a 2 mg (dose máxima 5 mg), via oral, com intervalos de 2 a 4 h.

 

Pronto agora abordamos tudo o que você precisa saber do delirium tanto nesse texto, como no texto anterior de psiquiatria. Caso você tenha interesse na área da psiquiatria, conheça a Pós-Graduação de Psiquiatria da Faculdade Cenbrap.

 

Referência:

Psiquiatria clínica- Felipe Paraventi