O quão comum é uma criança ter crises epilépticas?

Estima-se que entre 1% e 1,5% das crianças apresentem ao menos uma crise não febril ao longo da vida. Já as convulsões febris são as mais frequentes na pediatria, ocorrendo em cerca de 4% das crianças pequenas. Em alguns grupos populacionais, como japoneses (10%) e guamianos (20%), a incidência é muito maior.

Quando as crises podem começar?

As crises podem surgir em qualquer momento da infância, ou seja, desde o período pré-natal, passando pelo período neonatal, até o final da adolescência.

Como é definida a epilepsia atualmente?

A definição antiga considerava epilepsia quando havia duas crises não provocadas.
A definição mais recente da International League Against Epilepsy (ILAE) estabelece epilepsia quando ocorre pelo menos um dos seguintes:

  1. Duas crises não provocadas (ou reflexas) com intervalo > 24 h.
  2. Uma crise não provocada com risco futuro ≥ 60% de recorrência em 10 anos.
  3. Diagnóstico de uma síndrome epiléptica específica.

Por que identificar uma síndrome epiléptica é importante?

Neurologistas pediátricos analisam história clínica, exame físico, tipo de crise, idade de início e EEG.
Com essas informações, cerca de 50% das crianças conseguem ter seu quadro enquadrado em uma síndrome epiléptica. Isso permite:

  • Prever evolução;
  • Escolher melhor o tratamento;
  • Evitar medicamentos que podem piorar certos quadros.

Existem síndromes relacionadas a mutações genéticas específicas?

Apesar da esperança inicial de se encontrar “um gene para cada síndrome”, os estudos mostram que:

  • Uma mesma síndrome pode estar ligada a mutações diferentes.
  • Uma mutação pode aparecer em quadros distintos.
  • Apenas algumas mutações realmente orientam a terapêutica.

Exemplos práticos importantes:

  • SLC2A1 (deficiência do transportador de glicose): responde bem à dieta cetogênica.
  • SCN1A (síndrome de Dravet): tende a piorar com lamotrigina, que deve ser evitada.

Como os tipos de crises são classificados?

A classificação da ILAE (2017) divide as crises em:

  1. Início focal:
    • Com ou sem alteração de consciência.
    • Motores (clônicas, automáticas, tônicas etc.) ou não motores (sensoriais, emocionais, cognitivas).
    • Pode evoluir para tônico-clônica bilateral.
  2. Início generalizado:
    • Motores (tônico-clônicas, mioclônicas, atônicas, espasmos)
    • Não motores (ausências típicas, atípicas, mioclônicas, com piscar palpebral).
  3. Início desconhecido;
  4. Crises não classificadas;

Quais síndromes epilépticas são organizadas por idade de início?

Período neonatal:

  • Epilepsia neonatal familiar benigna;
  • Encefalopatia mioclônica precoce;
  • Síndrome de Ohtahara.

Primeiro ano de vida

  • Epilepsia da infância com crises focais migratórias;
  • Síndrome de West;
  • Epilepsia mioclônica da infância;
  • Epilepsia infantil benigna (familiar ou não);
  • Síndrome de Dravet;
  • Encefalopatia mioclônica em distúrbios não progressivos.

Infância

  • Febre + crises (FS+);
  • Síndrome de Panayiotopoulos;
  • Epilepsia com mioclonias-atônicas;
  • Epilepsia benigna com pontas centrotemporais (BECTS);
  • Epilepsia frontal familiar autossômica dominante;
  • Epilepsia occipital tardia (tipo Gastaut);
  • Epilepsia com ausências mioclônicas;
  • Síndrome de Lennox–Gastaut;
  • Encefalopatia epiléptica com pontas contínuas no sono (CSWS);
  • Síndrome de Landau–Kleffner;
  • Ausência infantil.

Adolescência / idade adulta

  • Ausência juvenil;
  • Epilepsia mioclônica juvenil;
  • Crises tônico-clônicas generalizadas isoladas;
  • Epilepsias mioclônicas progressivas;
  • Epilepsias temporais familiares.

Outras situações

  • Epilepsias focais familiares com focos variados;
  • Epilepsias reflexas;
  • Conjuntos distintos como:
    • Epilepsia do lobo temporal mesial com esclerose hipocampal;
    • Síndrome de Rasmussen;
    • Crises gelásticas por hamartoma hipotalâmico;
    • Hemiconvulsão–hemiplegia–epilepsia.

Aspectos Psiquiátricos em Crianças com Epilepsia

Qual é a frequência de transtornos psiquiátricos em crianças com epilepsia?

Um dos melhores estudos prospectivos avaliou 501 crianças com epilepsia recente. Elas foram divididas em:

  • Complicadas: lesão cerebral no exame ou QI < 80 (159 crianças)
  • Não complicadas: sem lesão e QI ≥ 80 (342 crianças)

Resultados gerais

  • Transtorno psiquiátrico presente:
    • 38% no grupo complicado
    • 27% no grupo não complicado (p = 0,008)

Quais transtornos foram mais encontrados?

  • Internalizantes (depressão, bipolaridade, TOC, esquizofrenia):
    • 17% no grupo complicado
    • 15% no grupo não complicado
  • Externalizantes (TDAH, TOD, conduta):
    • 31% no grupo complicado
    • 18% no grupo não complicado (p < 0,002)

A idade de início das crises influencia o risco psiquiátrico?

Sim:

  • Início < 2 anos: 11% tinham transtorno psiquiátrico.
  • Início 2–5 anos: 24%.
  • Início > 10 anos: 36%.

O sexo não influenciou o risco.

Quais síndromes apresentam maior associação com problemas psiquiátricos?

  • Ausência infantil: 23%.
  • BECTS (Benigna Rolandiana): 30%.
  • Ausência juvenil e Epilepsia Mioclônica Juvenil: 37%.

O relato dos pais pode influenciar o diagnóstico de transtornos emocionais?

Sim. Estudos recentes sugerem que:

  • O nível de estresse dos pais e a presença de transtornos de humor parentais podem influenciar o relato de sintomas emocionais da criança.
  • Isso significa que diferenças entre síndromes quanto a problemas psiquiátricos podem ser superestimadas quando se usa apenas informações dos pais.

Portanto, é recomendável cautela e uso de múltiplas fontes de avaliação, especialmente em pesquisas e na prática clínica.

Referência: BOLAND, Robert J.; VERDUIN, Marcia L. (Eds.). Kaplan & Sadock's Comprehensive Textbook of Psychiatry. 11. ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2024.