No Brasil, em outubro de 2003 foi instituído o Estatuto do Idoso, destinado a regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 anos.

Do ponto de vista biológico, conceitua-se o envelhecimento como um fenômeno caracterizado pela perda progressiva da reserva funcional, que torna o indivíduo mais propenso a ter doenças e aumenta a chance de óbito. Dessa forma, é necessário levar em conta as modificações anatômicas e funcionais que acompanham o processo de envelhecimento a fim de se realizar um exame clínico adequado e interpretar corretamente os dados obtidos.

 

Anamnese do paciente idoso

A anamnese é, e sempre será, a base para se cuidar de um paciente. No caso dos idosos, não é diferente. A relação médico-paciente surge durante o exame clínico. Se este for bem conduzido, a relação cresce e se fortalece; caso contrário, o paciente vai se desligando do médico ainda durante o exame clínico.

Além disso, o principal fator que faz o paciente seguir as recomendações – fazer exercícios físicos, modificar hábitos alimentares – e as prescrições é a boa relação médico-paciente.

A anamnese deve ser realizada pesquisando todos os sistemas orgânicos como no adulto jovem. Enfatizam-se, porém, os seguintes aspectos:

- Deficiência de memória imediata, recente e remota

- Deficiência auditiva

- Deficiência visual

- Transtornos do comportamento, como agressividade e atitude sexual

- Alterações da marcha e necessidade de uso de dispositivos auxiliares como bengala

- Alterações da mobilidade, flexibilidade e força muscular em membros e tronco

- Tontura, vertigem e síncope

- Episódios de quedas

- Traumatismos

- Alterações do nível de consciência

- Afecções da cavidade oral, estado de conservação dos dentes, alterações de gengivas e mucosas

- Distúrbios alimentares

- Perda ou ganho de peso

- Modificações no padrão do sono: sonolência diurna; insônia inicial, intermediária ou final

- Fadiga crônica

- Incontinência urinária ou fecal

- Sintomas depressivo ou de ansiedade

- Úlceras de pressão

As particularidades mais comuns da anamnese do paciente idoso são:

- O paciente informa pouco sobre sua doença, seja porque a aceita como inevitável, seja por considerar seus sintomas uma consequência natural do processo de envelhecimento

- O paciente fica intimidado pela pressa manifestada pelo médico

- O paciente esconde os sintomas ou nega a doença por não querer fazer exames ou ser internado, ou até por receio de ter gastos

- O processo de envelhecimento pode alterar as manifestações clínicas de muitas doenças, por exemplo: diminuição do limiar da dor nos casos de infarto do miocárdio, abdome agudo e fratura óssea

- Em indivíduos muito idosos ou frágeis, várias doenças podem manifestar-se de maneira atípica, inclusive em condições agudas que demandem atendimento de urgência.

- Múltiplas doenças – o que é frequente em idosos – interagem entre si, tornando mais complexa a elaboração da história clínica, mascarando sintomas e dificultando o raciocínio diagnóstico.

- Nunca deixar de tomar conhecimento dos medicamentos em uso pelo paciente, inclusive os usados por conta própria

 

Exame físico no idoso

O exame físico deve ser realizado de maneira sistematizada e completa, abrangendo todos os segmentos do corpo, como no adulto jovem. Os seguintes aspectos devem ser enfatizados:

- Avaliação da postura, da força muscular em graus, mobilidade e flexibilidade dos membros e do tronco

- Tipo de marcha, equilíbrio e modo de realizar transferência de um lugar para outro

- Hidratação, condição da pele e das mucosas

- Índice de massa corpórea

- Medida da pressão arterial e frequência cardíaca nas posições de decúbito e ortostática

- Palpação dos pulsos nos membros, palpação e ausculta de pulsos no pescoço e no trajeto da aorta abdominal

- Ausculta das carótidas

- Palpação supra púbica cuidadosa

- Toque retal

- Avaliação criteriosa de mãos e pés – deformidades, mobilidade, ferimentos, trofismo muscular, sinais de inflamação e isquemia, tremores

- Avaliação dos nervos cranianos, reflexos, sinais piramidais e extrapiramidais.

 

Avaliação funcional do idoso

É importante ressaltar que não se pode separar a avaliação funcional do idoso de uma cuidadosa avaliação clínica. Tudo começa pela anamnese, sendo que muitas vezes um cuidador ou familiar deve ser solicitado a fornecer informações ou completar as do paciente.

É fundamental o reconhecimento de que existe uma enorme heterogeneidade entre os idosos, sem se esquecer de que a idade cronológica não guarda relação com o prognóstico do paciente. Na verdade, os principais determinantes de melhor evolução na história natural das doenças dos idosos são o seu estado funcional e o contexto social em que vivem.

Os objetivos da avaliação funcional são:

- Melhorar a precisão diagnóstica

- Determinar o grau e a extensão da incapacidade

- Servir de guia para a escolha de medidas que visam restaurar e preservar a saúde

- Identificar fatores que predispõem à iatrogenia e estabelecer medidas para sua prevenção

- Estabelecer critérios para a indicação de internação e institucionalização

Parâmetros da avaliação funcional do idoso

Na avaliação funcional do idoso, os seguintes parâmetros devem ser avaliados:

- Força muscular

- Função cognitiva

- Condições emocionais

- Disponibilidade e adequação de suporte familiar e social

- Condições ambientais

- Capacidade para executar as atividades da vida diária

- Capacidade para executar as atividades instrumentais da vida diária

Pronto, tendo esses pontos em mente, você irá saber realizar um exame clínico adequado em pacientes idosos com a qualidade que ele merece. Fique atento ao blog, que traremos mais assuntos da área da Geriatria que merecem a sua atenção. Até lá!

 

Referências:

Porto- Exame clínico - Oitava edição