Exame do estado mental (EEM):

O exame do estado mental (EEM) é uma avaliação crucial na psiquiatria, equivalente ao exame físico em outras áreas médicas. Assim, ele abrange todas as funções mentais e identifica sinais e sintomas de transtornos psiquiátricos. Por isso, as informações são coletadas durante a entrevista, principalmente por meio da observação do comportamento e da aparência do paciente, com perguntas diretas complementando o exame. O EEM oferece um retrato do estado mental do paciente no momento da consulta e é útil para comparações em visitas subsequentes. 

Avaliação do estado mental: guia com 16 pontos a serem observados:

1. Aparência geral: apresentar-se ao paciente e peça para ele se sentar;

  • Aparência desleixada pode sugerir transtornos cognitivos.
  • Pupilas contraídas podem indicar uso de narcóticos.
  • Postura curvada pode ser um sinal de depressão.

2. Comportamento motor: perguntar ao paciente se ele tem estado mais ou menos ativo que o normal.

  • Observe movimentos, tremores ou odores (ex.: álcool).
  • Comportamento fixo e estranho pode ser um indicativo de esquizofrenia.
  • Hiperatividade pode estar associada ao uso de estimulantes ou mania.
  • Tremores podem ser sinais de ansiedade ou efeitos colaterais de medicamentos.

3. Atitude Durante a Entrevista: comentar sobre a atitude do paciente, como "Você parece irritado, isso está correto?".

  • Desconfiança pode indicar paranoia.
  • Comportamento sedutor pode ocorrer na histeria.
  • Apatia pode sugerir um transtorno conversivo.

4. Humor: perguntar sobre o humor do paciente: "Como você se sente? Você tem pensado em se machucar ou tirar a própria vida?"

  • Ideias suicidas são comuns em pacientes com depressão.
  • Euforia pode indicar um episódio maníaco.

5. Afeto: observar sinais emocionais, como expressões faciais e ritmo da voz. Notar se há inadequação, como rir ao falar de temas tristes.

  • Mudanças no afeto são comuns na esquizofrenia.
  • Perda da prosódia (entonação) pode estar associada a transtornos cognitivos ou catatonia.

6. Fala: pedir ao paciente para pronunciar palavras difíceis, como "Episcopal Metodista", para avaliar a articulação.

  • Fala acelerada pode indicar mania.
  • Fala reduzida é comum na depressão.
  • Fala irregular pode ser um sinal de transtornos cognitivos.

7. Sensopercepção: perguntar se o paciente vê ou ouve coisas que não estão presentes, como "Você vê coisas ou ouve vozes?".

  • Alucinações visuais podem indicar esquizofrenia.
  • Alucinações táteis podem sugerir abuso de substâncias, como cocaína.

8. Conteúdo do Pensamento: perguntar sobre pensamentos persecutórios ou fantasias, como "Você sente que as pessoas querem te prejudicar?".

  • Delírios congruentes com o humor indicam mania, enquanto delírios incongruentes sugerem esquizofrenia.

9. Processo de Pensamento: testar a capacidade de abstração com provérbios, como "Quem tem telhado de vidro não deve atirar pedras".

  • Associações frouxas podem indicar esquizofrenia.
  • Fuga de ideias pode ser sinal de mania.
  • Dificuldade em abstrair pode ocorrer em lesões cerebrais.

10. Orientação: questionar o paciente sobre o tempo, local e as pessoas ao redor: "Que dia é hoje? Onde estamos? Quem sou eu?"

  • Desorientação é comum em casos de delirium e demência.

11. Memória Remota: perguntar sobre eventos passados, como "Onde você nasceu? Quais eram as manchetes dos jornais na semana passada?".

  • Em pacientes com Alzheimer, a memória remota geralmente é preservada por mais tempo que a recente.
  • Lacunas de memória podem ser preenchidas com informações falsas.

12. Memória Imediata: pedir ao paciente para repetir uma sequência de números ou lembrar de itens após alguns minutos.

  • Perda de memória pode estar associada a transtornos cognitivos ou ansiedade.
  • Amnésia pode ser induzida por certas drogas, como benzodiazepínicos.

13. Concentração e Cálculo: realizar testes simples de cálculo e subtração, como "Conte de 1 a 20 rapidamente" ou "Subtraia 7 de 100".

  • Problemas com cálculos simples podem indicar ansiedade, depressão ou déficits cognitivos.

14. Informação e Inteligência: questionar o paciente sobre conhecimentos gerais, como "Qual é o maior estado do país?".

  • Considere o nível educacional ao avaliar as respostas.
  • Exclua a possibilidade de retardo mental ou funcionamento intelectual borderline.

15. Julgamento: perguntar sobre situações hipotéticas, como "O que você faria se encontrasse na rua um envelope selado e endereçado?".

  • Julgamento pode estar comprometido em doenças cerebrais, esquizofrenia ou intoxicação.

16. Nível de Entendimento: avaliar a percepção do paciente sobre sua condição, perguntando "Você acha que tem algum problema? Quais são seus planos para o futuro?".

  • A compreensão pode estar prejudicada em delirium, demência, síndrome do lobo frontal ou psicose.

 

Fonte: Sadock, Benjamin J. Compendio de psiquiatria : ciência do comportamento e psiquiatria clínica / Benjamin J. Sadock, Virginia A. Sadock, Pedro Ruiz ; tradução: Marcelo de Abreu Almeida ... [et al.] ; revisão técnica: Gustavo Schestatsky... [et al.] – 11. ed. – Porto Alegre : Artmed, 2017.