“Eu estava no litoral, voltando de carro com amigos, quando repentinamente e sem nenhum motivo, comecei a sentir uma enorme insegurança. Meu coração disparou e o sentia martelando em meu peito. Sentia minha cabeça formigando, estava com muito calor e comecei a suar abundantemente. Ao mesmo tempo, minhas mãos e pés estavam frios. Deixei de ouvir o que meus amigos falavam e só conseguia prestar atenção ao que estava sentindo. Respirava mais profundamente, sentia-me sufocado e pedi para abrirem as janelas do carro. Meu medo só aumentava e não sabia exatamente do que tinha medo. Pensei que fosse desmaiar ou que estivesse tendo um ataque de alguma coisa e que pudesse morrer. Fomos a um Pronto Socorro e o médico concluiu que meus sintomas se deviam a um excesso de sol.” Este é o relato de um paciente com 26 anos, do sexo masculino, descrevendo seu primeiro ataque de pânico. Se você fosse o médico do PS, teria feito o diagnóstico correto do paciente? Saberia a conduta mais adequada? Vamos analisar o caso e, juntos, chegar a uma conclusão!
O ataque de pânico é, sem dúvida, um evento dramático, que marca a vida do paciente. Prova disso é a forma como o jovem relata o acontecimento com riqueza de detalhes. Na história, observamos diversos sintomas que sugerem um ataque de pânico, porém não foram identificados ou correlacionados da maneira correta pelo médico atendente. Diante disso, torna-se importante ressaltar os critérios para o diagnóstico do ataque de pânico, segundo DSM-V:
Vale destacar que o diagnóstico de um ataque de pânico não significa necessariamente o diagnóstico de um Transtorno do Pânico. Para se firmar esse diagnóstico são necessárias outras condições além do Ataque de Pânico.
Nesse contexto, vamos seguir com a evolução do paciente: alguns dias após a crise voltou a sentir os mesmos sintomas. Procurou médico, que prescreveu-lhe um benzodiazepínico. As crises se tornaram mais frequentes. Com a repetição das crises e com medo de passar por novos episódios, passou a ficar muito tenso antes de ir ao trabalho, faltando diversas vezes. Deixou de sair com os amigos e evita passeios e jogos, passando seus períodos de lazer em casa, onde nunca teve crises. Fez inúmeras consultas e exames, tendo sido tratado com diversos benzodiazepínicos, porém sem resultado satisfatório.
A repetição do quadro sintomático já deixa o sinal de alerta para que investiguemos um Transtorno do Pânico, que, de acordo com o DSM-V, apresenta os seguintes critérios:
Já sabemos diagnosticar o Transtorno do Pânico, mas e agora, como tratar? Inicialmente, salientamos que a terapêutica (famarcológica, psicológica ou combinada) depende de diversos fatores, como a intensidade da influência do transtorno na rotina do paciente e a presença de comorbidades, por exemplo. Na abordagem farmacológica, são indicações de primeira escolha os antidepressivos: inibidores seletivos da recaptação de serotonina ou inibidores seletivos da recaptação de serotonina e noradrenalina. Já no tratamento psicoterápico, tem mostrado melhores resultados a Terapia Cognitivo-Comportamental. O ideal, na verdade, é que o tratamento farmacológico esteja associado a alguma forma de manejo psicoterápico, tanto para facilitar a remissão como para diminuir a chance de novos episódios de ataque de pânico.
Referências:
ZUARDI, Antonio W. Características básicas do transtorno do pânico. Medicina (Ribeirao Preto. Online), v. 50, n. supl1., p. 56-63, 2017.