Aprenda o manejo na emergência psiquiátrica infantil

Qual é o objetivo central da avaliação psiquiátrica de emergência na infância e juventude? 

A avaliação inicial não é apenas diagnóstica; ela deve funcionar como a primeira intervenção terapêutica. O médico busca compreender a origem da crise, acalmar o sofrimento do paciente e dos acompanhantes, avaliar a resposta às primeiras orientações e obter dados clínicos com segurança para definir o plano de ação imediato.

Quais elementos compõem uma avaliação completa no pronto-socorro? 

O levantamento clínico detalhado deve incluir:

  • Dados de identificação e queixa principal: Motivo do atendimento e histórico da doença atual.

  • Histórico psiquiátrico e tratamentos: Diagnósticos prévios, adesão medicamentosa e respostas a tratamentos passados.

  • Medicações atuais e histórico médico: Alergias, comorbidades clínicas e liberação médica/exame físico se indicado.

  • Uso de substâncias e histórico de trauma: Abusos, negligência, violência doméstica ou intervenções de órgãos de proteção à infância.

  • Histórico do desenvolvimento e escolaridade: Desempenho acadêmico, marcos do neurodesenvolvimento e dinâmica social.

  • Histórico familiar e jurídico: Casos psiquiátricos na família e eventuais questões legais.

  • Exame do estado mental: Avaliação de humor, afeto, pensamento e triagem cognitiva.

Por que é indispensável entrevistar a criança ou adolescente a sós, e como conduzir essa conversa? 

Pais e cuidadores tendem a focar em comportamentos visíveis e disruptivos (agressividade, agitação), muitas vezes deixando passar sintomas internos cruciais como depressão, ansiedade profunda e memórias traumáticas.

  • Explique com clareza o seu papel e os limites do sigilo.

  • Adote uma postura de escuta empática e curiosa, evitando um tom de reprimenda ou de mero questionário mecânico.

  • Dê protagonismo ao jovem para reduzir o sentimento de impotência comum nas crises.

Como investigar ideação suicida, homicida e psicose sem afastar o paciente?

Risco de auto ou heteroagressão: Pergunte de forma direta, tranquila e sem julgamentos. Crianças e adolescentes frequentemente negam essas intenções por medo de punição ou internação; normalizar a conversa sobre sentimentos intensos aumenta a chance de respostas honestas.

Alucinações e delírios: Adapte a linguagem. Crianças menores ou com atrasos cognitivos podem responder "sim" por não entenderem a pergunta; já adolescentes com psicose real podem omitir sintomas com receio do estigma de "loucura".

Como avaliar crianças muito pequenas, não verbais ou no espectro autista/deficiência intelectual? 

Mesmo com restrições na fala expressiva, o exame psíquico é realizado por meio da observação clínica ativa:

  • Capacidade de atender a comandos simples e comunicação por gestos.

  • Interação no brincar (paralelo ou compartilhado) e uso de desenhos para avaliar coordenação motora.

  • Tolerância à frustração, nível de hiperatividade e capacidade de atenção.

  • Padrão de apego, presença de ansiedade de separação ou sinais de medo em relação ao cuidador.

Como acolher e manejar os pais e cuidadores durante o atendimento? 

Na emergência pediátrica, o médico cuida de "dois pacientes": a criança e a família. Cuidadores frequentemente chegam exaustos, assustados e reativos.

  • Valide o sofrimento e o desgaste enfrentados pela família.

  • Conduza a conversa em local reservado, sem interrupções.

  • Reduzir a ansiedade e a raiva dos pais é fundamental para que eles consigam refletir sobre o estado emocional do filho e se tornem parceiros no tratamento.

O que fazer quando o paciente chega com terceiros ou pede sigilo em relação aos pais?

Sem os responsáveis legais: Se o paciente chega via socorristas, polícia ou assistência social e os pais não forem localizados, o atendimento e a estabilização de emergência devem ser iniciados imediatamente, mantendo esforços contínuos de contato.

Solicitação de sigilo pelo adolescente: Mesmo onde a legislação permita atendimento independente, a equipe deve acolher o jovem e trabalhar para restabelecer a ponte de confiança com a família, incentivando sua participação sempre que segura.

Como agir quando os relatos da criança, dos pais e da escola não coincidem? 

Discrepâncias são normais porque o comportamento varia conforme o ambiente (casa vs. escola) e o nível de percepção dos adultos.

Busque fontes colaterais de suporte: professores, pediatra de rotina, psicólogos externos e assistentes sociais.

Em situações de risco iminente à vida (como risco de suicídio) ou suspeita de abuso infantil, a garantia da segurança do paciente prevalece sobre o sigilo, autorizando o contato com terceiros e órgãos competentes.

O que significa aplicar o Cuidado Informado pelo Trauma (Trauma-Informed Care) na prática? 

Mais de 50% dos jovens em emergências psiquiátricas vivenciaram traumas graves e mais de 30% têm histórico com serviços de proteção infantil.

Precauções universais de trauma: Presuma que o trauma pode existir, mesmo se negado inicialmente devido a vergonha, medo ou estresse pós-traumático.

Ressignificação: Ajude a família a entender que certos comportamentos difíceis podem ser reações a eventos traumáticos que agravaram o quadro.

Foco em forças: Destaque os pontos fortes e a resiliência do paciente para fortalecer sua autoimagem e engajamento terapêutico.
 

Referência: BOLAND, Robert J.; VERDUIN, Marcia L. (Eds.). Kaplan & Sadock's Comprehensive Textbook of Psychiatry. 11. ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2024.