Números interessantes podem ser observados no estudo Demografia Médica no Brasil 2015, realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) com apoio do Conselho Federal de Medicina (CFM) e Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).Dados preciosos sobre a Medicina do Trabalho foram descritos, vejamos:

Demografia Medicina do Trabalho 2015

Conforme o estudo, a Medicina do Trabalho figura na sétima colocação como especialidade com maior número de profissionais (vide ranking abaixo):

1) Clínica Médica – 35.060 profissionais
2) Pediatria – 34.637 profissionais
3) Cirurgia Geral – 29.200 profissionais
4) Ginecologia e Obstetrícia – 28.280 profissionais
5) Anestesiologia – 20.898 profissionais
6) Cardiologia – 13.420 profissionais
7) Medicina de Trabalho – 13.343 profissionais

Um olhar mais aprofundado dos números do estudo revela um detalhe interessante: desses 13.343 médicos registrados como Médicos do Trabalho nos CRMs apenas em torno de 2000 possuem título de especialista (fonte ANAMT, em matéria veiculada no site oficial da instituição em 30/12/2014). É possível que esse número esteja atualmente maior, algo próximo de 3000.

Essa análise nos mostra que, hoje, aproximadamente 77% dos médicos contabilizados como Médicos do Trabalho não possuem título de especialista. Certamente que a maior parte desses médicos foram registrados nos respectivos CRMs antes de 2002, quando a Medicina do Trabalho não era reconhecida como especialidade médica e os certificados de cursos de Pós-Graduação Lato Sensu em Medicina do Trabalho eram suficientes para os CRMs para efeitos de registro.

Importante registrar que os profissionais egressos das residências em Medicina do Trabalho não precisam ter o título de especialista para que se registrem junto aos CRMs. O certificado de conclusão da residência já autoriza o registro nos conselhos. Imaginemos então que nos últimos 30 anos tenha havido 25 formados via residência por ano (na verdade esse número é menor pois não tivemos essa média no número de vagas de residências em Medicina do Trabalho nos últimos 30 anos; e precisamos considerar que muitos que começam a residência acabam não concluindo-a). Mesmo nesse cenário otimista, os hipotéticos 750 concluintes (que representariam a soma dos que concluíram a residência nesses últimos 30 anos) representariam apenas 5,6% do total de registrados como Médicos do Trabalho nos CRMs. Isso se considerarmos também que todos os egressos das residências não tenham conjuntamente o título de especialista, algo muito improvável.

ALTA FAIXA ETÁRIA

Como consequência de a maior parte dos registros terem acontecido antes de 2002, o estudo comprova que a especialidade tem um alto valor médio de idade dos profissionais registrados como Médicos do Trabalho: 56,3 anos. Esse número coloca a Medicina do Trabalho como a quarta especialidade “mais velha”, perdendo apenas para Patologia Clínica / Medicina Laboratorial (58,5 anos de média), Homeopatia (57,5 anos) e Medicina Legal e Perícia Médica (56,9 anos).

Outro dado que chama a atenção: dos 13.343 profissionais registrados como Médicos do Trabalho, apenas 2.173 (16,2%) possuem menos de 45 anos de idade. Ou seja, 83,8% tem 45 anos ou mais.

MÉDICOS DO TRABALHO QUE EXERCEM OUTRAS ESPECIALIDADES

O estudo também revela dados sobre Médicos do Trabalho que podem exercer outra especialidade em conjunto (ou não!) com a Medicina do Trabalho. Observem o ranking abaixo:

1) Clínica Médica – 97,1% dos profissionais registrados tem outra(s) especialidade(s)
2) Medicina do Trabalho – 77,8% dos profissionais registrados tem outra(s) especialidade(s)
3) Anestesiologia – 75,1% dos profissionais registrados tem outra(s) especialidade(s), dos quais 46,4% são especialistas em Clínica Médica
4) Cirurgia Geral – 74,3% dos profissionais registrados tem outra(s) especialidade(s)
5) Cardiologia – 71,8% dos profissionais registrados tem outra(s) especialidade(s), dos quais 58,7% são especialistas em Clínica Médica
6) Pediatria – 23,5% dos profissionais registrados tem outra(s) especialidade(s)
7) Ginecologia e Obstetrícia – 19,7% dos profissionais registrados tem outra(s) especialidade(s)

Considerando que a residência em Clínica Médica é pré-requisito para cursar residência em diversas especialidades, torna-se compreensível o fato de 97,1% dos profissionais especialistas em Clínica Médica terem outras especialidades (e vice-versa). O que mais impressiona, talvez, é o fato de 77,8% dos médicos registrados como Médicos do Trabalho terem e/ou exercerem outras especialidades, já que Medicina do Trabalho não é pré-requisito para nenhuma delas. O estudo mostra que 10.381 dos 13.343 profissionais registrados como Médicos do Trabalho possuem outra especialidade.

Interessante! Existem bem mais Médicos do Trabalho com outra especialidade (10.381) do que Médicos do Trabalho com título de especialista em Medicina do Trabalho (hoje, aproximadamente 3000). Ou seja, dos Médicos do Trabalho registrados nos CRMs, 77,8% tem outra especialidade registrada, enquanto que, aproximadamente, apenas 23% tem título de especialista em Medicina do Trabalho. Fica a pergunta no ar: quantos desses exercem de fato a Medicina do Trabalho?

Entre os 13.343 profissionais registrados como Médicos do Trabalho o casamento mais frequente com outras especialidades se dá com: 1.269 com Clínica Médica; 1.069 com Anestesiologia; 947 com Ginecologia e Obstetrícia; 869 com Cirurgia Geral; e 801 com Pediatria.

DESIGUALDADE NA DISTRIBUIÇÃO POR REGIÕES

Assim como em outras especialidades, a Medicina do Trabalho também apresenta diferenças significativas de concentração de profissionais. 66,1% dos profissionais estão na Região Sudeste, enquanto apenas 4,3% estão na Região Norte.

61,3% dos profissionais estão apenas em 3 estados: Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

Ranking de regiões com mais profissionais registrados como Médicos do Trabalho:

1) Sudeste: 66,1%
2) Nordeste: 11,8%
3) Sul: 9,5%
4) Centro-Oeste: 8,3%
5) Norte: 4,3%

Ranking de estados com mais profissionais registrados como Médicos do Trabalho:
1) Rio de Janeiro: 3.002
2) São Paulo: 2.798
3) Minas Gerais: 2.386
4) Paraná: 673
5) Espírito Santo: 629
6) Goiás: 439
7) Distrito Federal: 421
8) Rio Grande do Sul: 304
9) Santa Catarina: 298
10) Pará: 279
11) Bahia: 262
12) Alagoas: 217
13) Pernambuco: 213
14) Mato Grosso: 203
15) Rio Grande do Norte: 200
16) Sergipe: 192
17) Paraíba: 191
18) Amazonas: 163
19) Maranhão: 152
20) Ceará: 121
21) Mato Grosso do Sul: 47
22) Rondônia: 31
23) Acre e Piauí: 28 (cada estado)
25) Tocantins: 27
26) Amapá: 26
27) Roraima: 13

Ranking de estados com maior densidade de Médicos do Trabalho (número de Médicos do Trabalho/100.000 habitantes):

1) Rio de Janeiro: 18,3
2) Espírito Santo: 16,3
3) Distrito Federal: 15,0
4) Minas Gerais: 11,5
5) Sergipe: 8,7
6) Goiás: 6,8
7) Alagoas: 6,5
8) São Paulo: 6,4
9) Mato Grosso: 6,3
10) Paraná: 6,1
11) Rio Grande do Norte: 5,9
12) Paraíba: 4,8
13) Santa Catarina: 4,4
14) Amazonas: 4,2
15) Acre: 3,6
16) Amapá: 3,53
17) Pará: 3,50
18) Rio Grande do Sul: 2,7
19) Roraima: 2,6
21) Pernambuco: 2,3
21) Maranhão: 2,2
22) Tocantins: 1,82
23) Mato Grosso do Sul: 1,81
24) Rondônia: 1,79
25) Bahia: 1,74
26) Ceará: 1,3
27) Piauí: 0,8

MAIS HOMENS

Dos 13.343 médicos registrados como Médicos do Trabalho o estudo mostra que 61,9% são homens e 31,1% são mulheres.

REFLEXÕES

Toda essa análise nos remete, no mínimo, às seguintes reflexões:

(a) quantos Médicos do Trabalho em exercício temos hoje no Brasil? Essa análise é pertinente pois, apesar de haver 13.343 profissionais registrados como Médicos do Trabalho, muitos talvez jamais exerceram/exercem a especialidade;

(b) quantos Médicos do Trabalho atuantes teremos daqui a 10 ou 20 anos? Essa reflexão se justifica no fato de aproximadamente 70% dos estados brasileiros ainda não terem nenhuma vaga de residência para Medicina do Trabalho. Dados de 2009 mostram que das 11.331 vagas de residência médica abertas naquele ano no Brasil, apenas 29 foram para Medicina do Trabalho, o que representa 0,26% do número total, um número aquém da necessidade do país. De lá para cá, poucas mudanças. Se por um lado tivemos, por exemplo, a louvável criação de 02 vagas anuais no Distrito Federal, por outro, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) passou a oferecer apenas 04 vagas/ano desde 2014 (em vez das 07 vagas anuais que oferecia anteriormente). Infelizmente, hoje, são, aproximadamente, 25 vagas/ano em todo país, um número muito abaixo das demandas nacionais e ínfimo se comparado ao número de vagas oferecidas para as outras 6 especialidades mais congregadas.

Podemos concluir, também em decorrência da falta de vagas nas residências médicas, que as Pós-Graduações Lato Sensu em Medicina do Trabalho continuam sendo, apesar de todas as críticas que recebem, a principal porta de entrada para a especialidade. Atualmente a maior parte dos aprovados nas provas de título em Medicina do Trabalho são os egressos dos cursos de Pós-Graduação Lato Sensu. Na mesma esteira, conforme o belo estudo confeccionado pela ANAMT em 2016, intitulado Competências Essenciais Requeridas para Medicina do Trabalho (p. 37), numa pesquisa feita entre 218 especialistas em Medicina do Trabalho, 96% tinham em seus currículos um curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Medicina do Trabalho.

Reflitamos com zelo, sempre conferindo as fontes e os números (inclusive desse texto!), e sem extremos.

Autor: Marcos Henrique Mendanha: Médico do Trabalho, Especialista em Medicina Legal e Perícias Médicas. Advogado especialista em Direito e Processo do Trabalho pela UNIDERP. Perito Judicial / Assistente Técnico junto ao TRT-GO e TRF-GO. Diretor Técnico da ASMETRO – Assessoria em Segurança e Medicina do Trabalho Ltda. Autor do livro “Medicina do Trabalho e Perícias Médicas – Aspectos Práticos e Polêmicos” (Editora LTr). Editor do “Reflexões do Mendanha”, no site www.saudeocupacional.org. Coordenador do Congresso Brasileiro de Medicina do Trabalho e Perícias Médicas (realização anual). Coordenador Geral do CENBRAP – Centro Brasileiro de Pós-Graduações.