Síndromes psiquiátricas em idosos: diagnóstico e conduta

Como as doenças físicas podem provocar ou alterar sintomas psiquiátricos?

 Uma doença orgânica pode imitar ou causar quase qualquer quadro psiquiátrico por meio de diferentes mecanismos no corpo, além de poder coexistir com um transtorno mental pré-existente. Conforme o DSM-5-TR, essas condições incluem transtornos cognitivos, psicóticos, depressivos, bipolares, de ansiedade, obsessivo-compulsivos, catatônicos e alterações de personalidade.

Por que é difícil diferenciar um quadro psiquiátrico secundário a uma doença física de um transtorno primário? 

A diferenciação é complexa porque os sintomas costumam se sobrepor. A depressão em um paciente internado, por exemplo, pode derivar de um transtorno de adaptação, desânimo, efeito colateral de medicamentos, delirium, abstinência de substâncias, sequela de uma doença orgânica ou de um Transtorno Depressivo Maior. Eventos clínicos graves como sepse, síndrome do desconforto respiratório agudo, infarto do miocárdio e AVC também desencadeiam sintomas psiquiátricos com frequência.

Quais sinais alertam o médico de que o quadro psiquiátrico tem causa médica secundária? 

O médico deve suspeitar de causa secundária diante de sintomas psiquiátricos incompletos ou atípicos, primeiro episódio psiquiátrico em idade avançada, mudança no padrão de um transtorno prévio, ausência de histórico familiar psiquiátrico, alterações recentes na saúde ou nos medicamentos e a presença de déficits cognitivos concomitantes.

Como a depressão afeta a evolução de uma doença física crônica? 

A depressão intensifica as queixas físicas, aumentando a incapacidade funcional e a percepção de gravidade da doença. Ela também reduz a motivação e traz desespero quanto à eficácia do tratamento, levando ao abandono dos remédios, falta de autocuidado e piores desfechos clínicos. Nesses cenários, considera-se o diagnóstico de Fatores Psicológicos que Afetam Outras Condições Médicas. Por outro lado, a doença física pode mascarar e atrasar o diagnóstico de quadros psiquiátricos tratáveis.

Por que os idosos são mais vulneráveis a sintomas psiquiátricos causados por remédios? 

A maior vulnerabilidade decorre de alterações farmacocinéticas e da polifarmácia. Muitos medicamentos usados na terceira idade possuem baixo índice terapêutico, o que aumenta o risco de toxicidade, como ocorre com anticoagulantes, hipoglicemiantes, quimioterápicos e diuréticos.

Quais classes de medicamentos costumam gerar efeitos psiquiátricos indesejados?

 Qualquer remédio em dose elevada pode afetar o sistema nervoso central em um paciente vulnerável. Isso inclui medicamentos com ação central primária, como psicotrópicos, analgésicos opioides, antiparkinsonianos e anti-hipertensivos, além daqueles com ação central secundária, como digoxina, cimetidina, corticoides e anti-inflamatórios não esteroides. Corticoides podem induzir depressão ou irritabilidade, enquanto hormônios tireoidianos e antidepressivos podem gerar ansiedade.

Quais sinais físicos alertam para uma alteração psiquiátrica induzida por drogas?

 A suspeita deve aumentar na presença de perda de apetite recente, mal-estar geral, visão turva, tremores, fala arrastada, tontura, instabilidade ao caminhar, sonolência excessiva ou quando o paciente se queixa espontaneamente de estar se sentindo "drogado".

Como confirmar se um remédio é o causador da alteração no estado mental do paciente?

 A confirmação pode ocorrer ao identificar sintomas clássicos de superdosagem, como náuseas e visão amarelada na intoxicação por digoxina, ou ao reconhecer mecanismos comuns entre drogas, como a Síndrome Anticolinérgica Central. Contudo, a prova mais crucial é a melhora clínica do paciente após a redução da dose ou descontinuação do medicamento suspeito. Dosagens sanguíneas raramente ajudam, pois idosos podem apresentar toxicidade grave mesmo com níveis plasmáticos dentro da faixa terapêutica.
 

Referência: BOLAND, Robert J.; VERDUIN, Marcia L. (Eds.). Kaplan & Sadock's Comprehensive Textbook of Psychiatry. 11. ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2024.