O estresse vivenciado no cotidiano, a queda da qualidade de vida e as pressões no ambiente de trabalho são apenas alguns dos fatores ambientais que contribuem para o desenvolvimento do Transtorno Cognitivo Leve, que merece destaque pela sua relação com as síndromes demenciais. O distúrbio que já apresenta altas taxas de prevalência (16% da população), então passa a ser recorrente na prática da Medicina do Trabalho e da Psiquiatria.

Em linhas gerais, o transtorno cognitivo leve, também chamado comprometimento cognitivo leve (CCL) caracteriza-se por alterações da memória, da orientação e da capacidade de aprendizado, além da diminuição da capacidade de concentração para a realização de atividades. É um quadro espectral, que varia em intensidade de pessoa para pessoa. Da teoria à prática: chegará ao seu consultório um paciente que se queixa de sensação de fadiga mental ao executar suas tarefas diárias. No trabalho, começa a apresentar falhas cognitivas que não apresentava antes; tem dificuldade para realizar atividades mentais primárias, como cálculos simples.  O paciente pode mostrar-se preocupado com o quadro, chegando a dizer que é o início da Doença de Alzheimer.

  • Etiopatogenia

Para iniciar a investigação, buscamos identificar a causa do transtorno. A etiopatogenia do CCL é multifatorial e a investigação clínica deve afastar transtornos neurológicos maiores e outras doenças sistêmicas, como hipovitaminoses, neuroinfecções e alterações do metabolismo tireoidiano. Essa análise deve ser feita de forma cuidadosa e refinada, visto que, muitas vezes, as manifestações apresentadas são subvalorizadas, confundidas com sinais exclusivos de cansaço ou até mesmo tomadas como invenções subjetivas do paciente.

No EaD de Transtornos Mentais e Trabalho, o psiquiatra Dr. Pedro Shiozawa reforça: “Alterações do cérebro não dizem respeito à vontade do indivíduo. Nosso comportamento é reflexo de um cérebro funcionante dentro da fisiologia adaptativa normal. Se há alteração de qualquer função cognitiva... é porque existe um processo disfuncional subjacente.”

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  • Diagnóstico

Assim sendo, podemos fazer o diagnóstico clínico do CCL a partir da identificação dos seguintes critérios:

- Comprometimento leve de memória episódica relatado pelo paciente;

- Déficit de memória episódica leve confirmada por teste cognitivo;

- Em geral, funções cognitivas preservadas, ou com alterações discretas confirmadas por teste cognitivo. 

- Atividades funcionais (sociais e ocupacionais) preservadas ou com discretas alterações, porém sem impacto relevante no desempenho das tarefas da vida cotidiana. 

- Deve ser clara a ausência de demência.

  • Avaliação contínua

Com o objetivo de avaliar o CCL e quantificar as manifestações subjetivas do paciente, recomenda-se a utilização de escalas, dentre as quais se destaca, por exemplo, o Mini Exame do Estado Mental (MEEM). A grande questão é que, independente do exame escolhido, a nota absoluta obtida não é que mais importa, mas sim a evolução desse escore ao logo do tempo. Variações além do que se espera sugerem um processo patológico em desenvolvimento.

Um exemplo clássico dessa análise pode ser observado quando se faz o MEEM antes e depois das férias de um funcionário. No fim do ano, o indivíduo já se encontra fisicamente cansado, sobrecarregado de tarefas e mentalmente fadigado, alcançando pontuação inferior à de costume no MEEM. Ao retornar de suas férias, entretanto, consegue obter um escore maior. Os resultados confirmam que o trabalhador passava apenas por um processo adaptativo, não patológico. A situação seria diferente em caso de um transtorno neurodegenerativo, como a Doença de Alzheimer, pois não haveria melhora do desempenho.  

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  • Prognóstico

Embora nem todos os indivíduos com CCL progridam para um quadro demencial, sabemos que o transtorno cognitivo leve corresponde a uma etapa inicial das doenças neurodegenerativas. Isso explica por que muitos pacientes mostram-se ansiosos em relação a sua condição de saúde mental, pois temem estar vivenciando os pródromos de um quadro demencial.

Apesar da grande preocupação, estudos revelam um bom prognóstico para pacientes com CCL. Cerca de 75% dos pacientes cursam com remissão clínica após tratamento psicoterapêutico específico; os outros 25% tendem a evoluir para síndrome demencial dentro de um período de 3 anos.

Esses dados revelam a importância do diagnóstico precoce do CCL, possibilitando tratar o doente e logo devolvê-lo às suas atividades sociais e laborais.

 

Referências:

  1. CENBRAP – EAD: Transtornos Mentais e Trabalho.

  2. Transtorno Cognitivo Leve. Revista de Medicina, USP, 2015.

  3. Prognosis of mild cognitive impairment in general practice: results of the German AgeCoDe study. Annals of Family Medicine, 2014.