Muitas vezes negligenciada, a saúde mental infantil precisa ser debatida e estudada. Com o passar dos anos, o número de atendimentos de crianças e adolescentes com crises psiquiátricas aumentou consideravelmente e pensando nisso, nós da Faculdade CENBRAP preparamos este texto para que os médicos compreendam melhor sobre as emergências psiquiátricas infantis.
Dentre as emergências psiquiátricas infantis existentes, nós iremos aprofundar sobre como realizar a avaliação e o manejo correto diante de um paciente com comportamento suicida, comportamento violento e traumas e crianças que passaram por abuso tanto físico quanto sexual.
Boa leitura!
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1° Emergência psiquiátrica infantil: Comportamento suicida
Avaliação:
Comportamento suicida é o motivo mais comum para uma avaliação de emergência em adolescentes. Apesar do risco mínimo de suicídio consumado em uma criança com menos de 12 anos, ideação ou comportamento suicidas em uma criança de qualquer idade devem ser avaliados de maneira criteriosa, com particular atenção a sua condição psiquiátrica e à capacidade da família ou dos responsáveis de proporcionar supervisão adequada.
A avaliação deve determinar:
- As circunstâncias de ideação ou comportamento suicidas;
- A letalidade da ideação;
- A persistência comportamento suicida;
- Sensibilidade, apoio e competência da família para averiguação da capacidade de monitorar o potencial suicida da criança;
- Durante o curso de uma avaliação de emergência, o médico deve decidir se a criança pode voltar para casa, para um ambiente seguro, e receber acompanhamento ambulatorial, ou se é necessário hospitalização;
- Uma história psiquiátrica, um exame do estado mental e uma avaliação do funcionamento da família ajudam a estabelecer o nível geral de risco.
Manejo:
- Quando houver ocorrência de comportamento autolesivo, o adolescente provavelmente precisará de hospitalização em uma unidade pediátrica para tratamento da lesão ou para observação de sequelas médicas após uma ingestão tóxica. Se não houver problemas médicos, o médico deve decidir se o adolescente necessita de internação psiquiátrica.
- Caso haja persistência da ideação suicida e demonstração de sinais de psicose, depressão grave (incluindo desesperança) ou ambivalência acentuada sobre suicídio, é indicada admissão psiquiátrica.
- Um adolescente que esteja consumindo drogas ou álcool não deve ser liberado até que se possa fazer uma avaliação quando ele estiver desintoxicado.
- Pacientes com perfis de alto risco – como sexo masculino no fim da adolescência, sobretudo na presença de transtornos de abuso de substância e de comportamento agressivo, e que tiveram depressão grave, ou que realizaram tentativas de suicídio anteriores, especialmente com armas letais – justificam hospitalização.
- Crianças mais jovens que realizaram tentativas de suicídio, mesmo quando de baixa letalidade, precisam de admissão psiquiátrica se a família for tão caótica, disfuncional e incompetente a ponto de deixar o tratamento de acompanhamento improvável.
Leia: “Como aplicar o exame psíquico”
2° Emergência psiquiátrica infantil: Comportamento violento e traumas
Avaliação:
- A primeira tarefa em uma avaliação de emergência de uma criança ou adolescente violento é assegurar que tanto eles quanto os membros da equipe estejam fisicamente protegidos de modo que ninguém se machuque.
- Se a criança parecer se acalmar na área de emergência, o médico pode indicar que ajudaria se ela pudesse recontar o que aconteceu e perguntar se consegue fazê-lo. Se a criança concordar e o médico achar que ela tem bom controle, ele pode abordá-la com a equipe de apoio próxima. Caso contrário, o profissional pode dar vários minutos para que a criança se acalme antes de reavaliar a situação ou, no caso de um adolescente, sugerir que um medicamento o ajudará a relaxar.
- Caso o adolescente esteja evidentemente agressivo, contenções físicas podem ser necessárias antes que se tente qualquer outra abordagem. Algumas crianças e adolescentes em fúria, que são levados para o setor de emergência por famílias que não sabem mais o que fazer, conseguem recuperar o controle sobre si mesmos sem o uso de contenções físicas ou farmacológicas.
Fique atento!
Crianças e adolescentes são mais propensos a se acalmar se forem abordados de forma não ameaçadora e tranquila e quando lhes é dada a chance de contar seu lado da história para um adulto que não os julgue. O médico deve conversar com os familiares e outras pessoas que testemunharam o episódio para compreender o contexto do acontecimento e o grau em que a criança perdeu o controle.
Manejo:
- Crianças pré-púberes, na ausência de uma doença psiquiátrica maior, raramente precisam de medicamentos para mantê-las seguras, porque em geral são pequenas o suficiente para serem contidas fisicamente se começarem a machucar a si mesmas ou aos outros.
- Não é imediatamente necessário administrar medicamentos a uma criança ou adolescente que estava tendo um acesso de fúria, mas que se encontra em um estado calmo durante o exame.
- Adolescentes e crianças mais velhas que são agressivas, agitadas ao extremo ou manifestadamente autolesivas e que possam ser difíceis de subjugar fisicamente podem precisar de medicamentos antes que se possa dialogar com elas.
- Crianças com história de ataques de raiva graves, repetidos e autolimitados podem não requerer admissão em um hospital se forem capazes de se acalmar durante o curso da avaliação. Ainda assim, o padrão ocorrerá novamente a menos que o tratamento ambulatorial contínuo para a criança e para a família seja providenciado.
- No caso de adolescentes que continuam a representar perigo para si mesmos ou para outros durante o período de avaliação, a internação hospitalar se faz necessária.
3° Emergência psiquiátrica infantil: Abuso infantil – físico e sexual
Avaliação:
Abuso físico e sexual ocorre em meninas e meninos de todas as idades, em todos os grupos étnicos e em todos os níveis socioeconômicos. Os abusos variam bastante com relação à gravidade e à duração, mas qualquer forma de abuso contínuo constitui uma emergência para a criança. Nenhuma síndrome psiquiátrica é condição indispensável de abuso físico ou sexual, mas medo, culpa, ansiedade, depressão e ambivalência quanto à revelação normalmente envolvem a criança vítima de abuso.
Alguns comportamentos podem ser observados, tais quais:
- Crianças pequenas que sofrem abuso sexual podem exibir comportamento sexual precoce com pares e demonstrar um conhecimento sexual que reflete a exposição além de seu nível de desenvolvimento.
- Comportamentos sádicos e agressivos também podem ser observados em crianças vítimas de abuso. É provável que crianças que sofrem abuso de qualquer natureza sejam ameaçadas com consequências graves e assustadoras pelo perpetrador se revelarem a situação a alguém. Com frequência, uma criança abusada que é vitimada por um membro da família é colocada em uma posição irreconciliável de ter que suportar o abuso contínuo silenciosamente ou desafiar o abusador ao revelar as experiências e ser responsável por destruir a família e correr o risco de que não acreditem nela ou que a família a abandone.
Indicadores físicos de abuso sexual em crianças incluem:
- Doenças sexualmente transmissíveis;
- Dor, irritação e coceira na genitália e no trato urinário;
- Desconforto ao sentar-se e ao caminhar.
Tome nota: Em várias ocasiões de suspeita de abuso sexual, no entanto, não estão presentes evidências físicas. Portanto, uma história minuciosa é fundamental. O médico deve falar diretamente sobre as questões sem conduzir o paciente, porque crianças já assustadas podem ser facilmente influenciadas para validar o que acreditam que o examinador quer ouvir.
Ademais, crianças que sofreram abuso com frequência desdizem tudo, ou parte do que revelaram, durante o curso da entrevista. Usar bonecos anatomicamente corretos na avaliação de abuso sexual pode ajudar a criança a identificar partes do corpo e a mostrar o que aconteceu, mas nenhuma evidência conclusiva oferece respaldo à brincadeira sexual com bonecos como forma de validar abuso.
Manejo:
- A decisão mais importante a ser tomada durante a avaliação inicial é se a criança está segura no ambiente familiar. Sempre que houver suspeita de negligência ou abuso, deve-se alertar a agência de assistência social local.
- Em casos de suspeita de abuso, a criança e outros membros da família precisam ser entrevistados individualmente para lhes proporcionar a chance de falar em particular.
- Se possível, o médico deve observar a criança individualmente com o pai e com a mãe para ter uma percepção da espontaneidade, da afetuosidade, do medo, da ansiedade ou de outra característica proeminente dos relacionamentos.
- No entanto, uma observação em geral não é suficiente para fazer um julgamento final sobre o relacionamento familiar; crianças que sofrem abuso quase sempre têm sentimentos mistos em relação ao genitor abusivo.
Por que todo médico precisa (mais do que nunca) saber Psiquiatria?
Pronto! Agora você sabe como fazer a avaliação destas três emergências psiquiátricas infantis. Saiba que as três emergências psiquiátricas infantis aqui abordadas são possivelmente letais e por isso o médico deve estar em constante estudo para se sentir preparado e fazer o manejo adequado dos pacientes.
Este texto usou como referência o Compêndio de Psiquiatria – Kaplan e Sadock. Nós da Faculdade Cebrap sabemos a importância do tema e por isso um dos cursos que temos em nosso catálogo é na área da psiquiatria infantil. Clique aqui e conheça um pouco mais!